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Nada Temas!

Um espaço de liberdade em permanente atualização.

Nada Temas!

Ronaldo, Cristina e os chavões do capitalismo mascarado de feminista

14.02.21

Nota introdutória:

Há uns meses, depois de ouvirmos, como é ritual semanal, o podcast “Um homem e Uma mulher”, com Rui Zink e Inês Pedrosa, iniciámos mais uma das nossas conversas sobre feminismo. Desta vez, as nossas discordâncias eram tantas quer entre nós, quer em relação aos “podcasters”, que resolvemos escrever-lhes, à boleia dos habituais pedidos de contacto aos ouvintes, com algumas perguntas.

Na passada semana, fomos surpreendidos com a resposta num programa em que abordaram o nosso contacto. Já tinhamos recebido um email de agradecimento e dando conta de que o tema seria abordado em breve, mas nunca pensámos que tivesse este destaque. A surpresa inicial foi natural para estes dois anónimos, que rapidamente fez crescer a frustração com o unilateralismo radiofónico, que não nos permitia intervir na conversa.

No entanto, ainda bem que assim foi. Era esse o impulso que faltava para arrancarmos com o nosso espaço “Nada Temas”, idealizado há alguns meses. Obrigado, por esse facto, Rui Zink e Inês Pedrosa!

Para melhor perceberem as palavras que se seguem aconselhamos que dediquem algum tempo a ouvir o  programa "Um Homem e Uma Mulher" de dia 29 de janeiro. Aliás, até o podem fazer regularmente, que mal não vos fará.

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É frequente vermos a liberdade financeira associada à ideia de emancipação feminina. Entre nós não há consenso quanto à efetiva força do dinheiro na liberdade individual, mas temos duas conclusões imediatas a partilhar:

Por uma lado, é óbvio que numa sociedade capitalista o dinheiro pode comprar a independência, mas nunca o respeito, independentemente do sexo, ou de qualquer outra condição.

Por outro, é impossível garantir que o sucesso financeiro tenha qualquer capacidade para influenciar a corrente machista dominante.

A liberdade financeira é claramente um dos fatores para uma completa emancipação. Mas devemos defendê-la como forma de empoderamento feminino? Não será esse um erro de um feminismo demasiado vinculado à sociedade capitalista?

É aflitiva a ideia de que uma mulher se possa considerar mais livre por ser financeiramente bem sucedida, em comparação com outra que é, por exemplo, muito mais pobre mas que tem aos seus ombros a subsistência de todo o agregado familiar. Ou até de uma desempregada que carrega o fardo dos cuidados de toda a casa e de todos os que lá vivem. Ou de uma outra que apenas carrega o “fardo” do gin tónico.

Sabemos que haverá sempre o comentário redutor “isso são coisas diferentes”, sempre acompanhado do “isso não tem nada a ver”. Mas o pior é que tem...

Porque mesmo que não queiram, os opostos servem sempre de desculpabilização, seja para a desigualdade, seja, nos casos mais graves, para a necessidade da mulher aguentar comportamentos indevidos, porque não tem para onde ir.

E se essa desculpabilização já mostra uma enorme crise de valores, maior se torna quando a relevância não é dada à liberdade conferida pelo dinheiro – que é lamentavelmente uma mera evidência dos tempos em que vivemos – mas quando é feita uma colagem deste à ideia de sucesso. Essa colagem é o engodo capitalista a funcionar.

A Cristina Ferreira é um sucesso, porque atinge todos os objetivos a que se propõe. E daí resultou a chegada a uma patamar onde é temida pelos que a querem derrubar, onde é invejada por quem queria o seu lugar e onde é desdenhada por quem a queria ter. E onde é admirada por muitos, mesmo muitos! Assim como também o é o Cristiano Ronaldo, quer no futebol, quer nos negócios.

Mas porque são sempre dados estes dois exemplos?

Na metade do manicómio redondo onde prolifera o capitalismo democrático os exemplos de sucesso são sempre homens e mulheres que chegaram ao topo do poder ou da finança. No fundo, bem sucedido no capitalismo democrático é aquele e/ou aquela que consegue chegar à elite.

E aqui entra a palavra que passamos a vida a evitar, mas que neste ponto é inevitável. Ser elite é, nesta sociedade em que vivemos, chegar ao ponto da opulência.

Nós conseguimos conceber que haja pessoas de sucesso cujas contas bancárias não correspondem ao seu mérito, mas apenas se formos confrontados com evidências claras da sua superioridade, seja pela vida de superação, pelo brilho intelectual, pela coragem, ou por qualquer outro critério, porque se tivermos que pensar de forma imediata na ideia de sucesso, então a colagem é quase instantânea ao dinheiro. E, pior, nem sempre entendemos os sacrifícios que as pessoas fazem se não tiverem contrapartida financeira clara e abundante!

(Para aqueles que estão a pensar que este raciocínio é disparatado, façam como nós e pensem num exemplo de pessoa portuguesa de sucesso. Vá, não vale dizer Cristiano Ronaldo e Cristina Ferreira.)

Por muito que custe, a nossa ideia de sucesso é o resultado de anos de colagem educacional e mediática ao dinheiro. Pois, estamos perdidos...

Na verdade, um homem desempregado merece o mesmo respeito da Cristina Ferreira, mesmo que tenha tido oportunidade para ser a Cristina Ferreira, mas tenha preferido passar o tempo do curso no bar da faculdade a jogar à “Sueca”.

Assim como uma mulher que passe 14 horas diárias fora de casa para trazer um salário mínimo, que corresponda ao único rendimento fixo do agregado familiar, é tão digna de ser considerada bem sucedida como o Cristiano Ronaldo.

Em suma, toda a ideia de que o respeito por alguém, seja na sua individualidade seja nos seus direitos, possa estar de algum modo vinculada à ideia de sucesso é em toda a medida uma estupidez (palavra cautelosamente escolhida).

Somos todos frutos de um conjunto de circunstâncias que moldam não só o nosso ponto de partida, mas principalmente o nosso ponto de chegada.

 

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O capitalismo na sua vertente de produção é cego nas distinções entre pessoas, apenas releva a capacidade de gerar mais dinheiro (seja homem, mulher, ou até máquina). Mas já vê um pouco melhor na componente social, onde com toda a facilidade fomenta a definição de grupos sociais bem distintos nos comportamentos e nas contas bancárias.

As elites querem criar um conceito de igualdade na sua camada social, aquele ”algo” especial, que os torna iguais entre si, mas acima dos restantes.

Como uma espécie de estabelecimento onde servem um café banal, mas com restrições à entrada. Ou pior, sem restrições à entrada, mas com o café banal a custar o preço de meia vitela e a ser servido por alguém que tirou um curso só para aprender a vestir a sua farda, para que aquele que o pede saiba, só pelo preço e pela pompa, se pertence ou não àquele lugar.

Mas, volta e meia, aparecem nesse estabelecimento jogadores de futebol que preferiram o Lamborghini ao MBA, ou apresentadoras de TV que adoram um bom investimento aliado a umas espalhafatosas gargalhadas. Pessoas que não nasceram elite, mas que chegaram lá porque fizeram escolhas acertadas dentro do jogo capitalista.

Estes amadores que se tornaram profissionais passaram a sentar-se na mesa “dos grandes”. Os seus nomes são marcas de sucesso.

 

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Parabenizar o sucesso profissional e financeiro da Cristina Ferreira não é parabenizar o sucesso da luta feminista. É parabenizar uma mulher na superação do jogo capitalista.

É uma mulher rica e bem sucedida? É!

Mas o seu dinheiro não lhe retirou a ditadura da imagem feminina, do estigma da subida horizontal, da especulação de que é apenas uma cara bonita cujos investimentos são escolhidos por alguém na retaguarda. O dinheiro não fez com que ela se tornasse imune à objetificação típica, agravada por ser uma figura pública.

O sucesso feminista da Cristina Ferreira não está no resultado, está no percurso e na forma de o percorrer. Está na pessoa e não na figura pública. Mesmo que ela não seja uma feminista, o seu percurso superou-a pelo caminho que percorreu, onde foi mais uma a jogar, a correr e a lutar. Foi igual, não foi mais nem foi menos. Foi igual.

Porque se vamos focar-nos no resultado, o que temos é o nascimento de mais uma opulenta capitalista. E, para nós, o poder libertador do dinheiro em demasia tem um lado oculto demasiado pesado, na capacidade de fazer outros seus reféns pela dependência e pela necessidade.

Outros e até os próprios. Mas isso já é outra história.

 

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Declaração de interesses:

Leigos nos confessamos no assunto e nele nos debruçamos por mera convicção, mas acreditamos que o feminismo é verdadeiramente interseccional. Não há um feminismo, há diferentes abordagens a uma multiplicidade de problemas e de realidades. Todas as mulheres exigem o respeito como critério de existência e todos os fatores diferenciadores das mulheres entre si mostram diferentes necessidades de abordar a mulher e o feminismo.

50% de nós é fã de Cristina Ferreira, por ser capaz de ser feminina, arrojada e acima de tudo por ser mulher. Porque uma mulher deve ser sempre admirada quando chega ao topo e não vendo mais degraus para subir decide construí-los com as suas próprias mãos. E aceitamos que essa admiração é o resultado de uma visão feminista viciada pela realidade urbana e inserida num meio de progressão pessoal e profissional em que fomos educados.

Mas - felizmente - o mundo não acaba em nós...

Rita e Pedro